“Escreva sem se policiar, papel é para se lambuzar.”
Adriano Monteiro
Oval
Se atropelam meses, feriados, datas especiais viram feridas, nelas se constatam que o tempo passa e você continua perdido.
Obviamente houve conquistas, a gente se pergunta, devo ter tido, afirma, não é possível ser diferente, completa, afinal são anos e mais anos.
Talvez seja só uma mera dificuldade em enxergar. Talvez ainda falte tempo, falte digestão, distanciamento. Talvez esteja só fortalecendo a base.
Questões e mais questões de quando se decide recomeçar.
Adriano Monteiro
Descoberta
Por vezes toda a nossa busca é só decepção, nada encontramos.
A surpresa é notar em nós o que sempre buscamos além. Relutamos até perceber, quanto tempo perdido!
Aguçava a vista, fazia força, franzia a testa e longe nada distinguia na paisagem.
Um dia em silêncio percebi, tudo estava dentro de mim. A realização do meu sonho, a minha busca, o intangível está em mim, não em ninguém, em nada além de mim.
Adriano Monteiro
Despertando, ando
A sensação tende a ser conflitante, ao mesmo tempo encantadora e angustiante.
Não basta imaginar, tem que viver, sentir, se privar de soluções imediatistas, tem que maltratar a carne, por vezes arde.
Mais tarde, sem solução, o encanto assume o lugar do desespero. Você já não precisará de nada, e então, nada lhe fará falta.
Tendo você por inteiro, se terá tudo, a todos, o mundo.
E tudo que se procurou por uma vida inteira caberá num instante, talvez num simples balançar de cadeira.
Adriano Monteiro
“Hoje saí da cama só por esse motivo, para te mandar um “oi”, manter contato, essas coisas todas tão cheias de entrelinhas… Que triste percebo, só demonstram o nosso distanciamento, o tato que há tempos já não existe.”
Adriano Monteiro
sem título
Às vezes tudo que preciso é passar um pouco de frio na rua. O vento gelado, os dedos finos, brancos. Escutar a moto distante que rasga a estrada. O gato que desconfiado sai debaixo do calor do carro do vizinho e atravessa a rua incomodado com minha presença. O vigia que em silêncio faz a ronda. Em cada trago ouvir o delicado papel queimando, consumido pela brasa. O registro que mede a água e reabastece a caixa. A luz do poste que por mais de uma vez me puxa o olhar como se fosse a lua me chamando atenção, frustração. Dou risada. Frio. Dos dedos, toma o braço e parte da perna, o peito se mantém quente, permaneço. Tempo. Do peito a face puxa sangue e enrubesço, vermelho, rosto quente, pele irritada, o frio queima, permaneço. No frio permaneço e me esqueço, amorteço, restabeleço meu silêncio, inibo minhas paixões, me agrupo e satisfeito noto, no frio me reconheço.
Adriano Monteiro
Chave
Qual o sentido do trabalho se prejudica sua saúde?
Será fortalecer o caminho no sentido contrário ou será justamente uma força maior te colocando forçosamente no caminho correto, aproximando sua vida daquela situação inicial que conduzirá ao encontro de tudo que você procura?
Ou será ainda, que essas idéias e questionamentos, de nada servem, a não ser continuar abastecendo, mesmo que nunca se realizem?
Adriano Monteiro
“Quando todas as luzes se apagam, me guio pelo tato e sempre descubro - novo ou não - um caminho que me faz seguir, me faz ir, e quem sabe em breve, novamente, sorrir.”
Adriano Monteiro
Algo que comi
Hoje pulei o dia
Um café com leite
Sem um, nem outro
Nada descia
Resmunguei pelos cantos
Vomitei três vezes, febre, cãimbra
Dor abdominal, cabeça, diarréia
Fraco, me encostei
Apoiei, demorei a chegar
na cozinha, no banheiro
Fiz chá amargo, boldo
Esperando a cura não do amargor e sim do conteúdo, coloquei açúcar
Pra que sofrer mais se o dia já está assim…
Merda, enjôo, frágil e ainda cheio de desamor
Adriano Monteiro
Não pode
Não pode preto, bixa, gordo e feio
Pobre, japa
Baiano
Cearense
Narigudo, porca, puta e burro
Não pode falar que não gostou
“Não vou por que não quero”
Tá caro, muito barato, também não pode
Ignorante, arrogante, prepotente, não pode ser,
mesmo que seja você!
Não pode não atender, não retornar, não responder,
responder também não pode: “bocudo, discarado!”
Não pode não perdoar, comer sozinho, não convidar
não pode bater, mas pode apanhar
Sofrer, luto, se apegar a uma roupa, jóia, relógio, não pode
Tem que se redimir, inibir o sangue, deixar de existir
Adriano Monteiro